Em entrevista ao programa Hora H, o pesquisador de Harvard Vitélio Brustolin detalha os bastidores do memorando bilateral e o impacto nas eleições norte-americanas e no Oriente Médio.
Por Redação Geopolítica | Atualizado em 18 de junho de 2026
O cenário das relações internacionais enfrenta um novo ponto de inflexão. Em entrevista exclusiva ao canal Hora H, Vitélio Brustolin — professor da UFF e pesquisador associado da Universidade de Harvard — trouxe uma perspectiva crítica sobre o recente entendimento provisório costurado entre a Casa Branca e o governo de Teerã. Segundo o especialista, o pacto atual foi estruturado com bases frágeis, desenhado quase que deliberadamente para não prosperar no longo prazo.
Este pré-acordo está dividido em 14 diretrizes principais, estabelecendo um teto de 60 dias para a consolidação de um tratado definitivo. O documento prevê ainda um mecanismo de extensão temporal, caso as duas potências necessitem de mais prazo para alinhar seus interesses diplomáticos.
Um pacto frágil na geopolítica do Oriente Médio
Na visão do analista, o memorando serve mais como uma resposta paliativa do que como uma aliança geopolítica robusta. "A realidade indica que este plano foi estruturado para ser desfeito", disparou Brustolin.
O pesquisador pontua que a mera manutenção da atual conjuntura favorece estrategicamente o Irã. O tráfego marítimo no Estreito de Ormuz operava normalmente antes das ofensivas promovidas por Washington e Tel Aviv. Consequentemente, qualquer atrito futuro na mesa de negociações poderá comprometer o fluxo dessa via crucial de comércio de petróleo, independentemente de uma ação direta do Hezbollah ou das forças israelenses.
Brustolin defende que a comunidade internacional desviou o foco do verdadeiro cerne da questão: o potencial atômico iraniano. "O debate central deveria girar estritamente em torno do programa nuclear do Irã", ressaltou.
Ele relembrou que, durante as reuniões de cúpula do G7, os parceiros globais exigiram de Donald Trump uma postura mais firme, cobrando que o escopo das negociações incluísse:
O controle do arsenal e desenvolvimento de mísseis iranianos;
O monitoramento da produção de drones militares;
O fim do financiamento a organizações regionais, como Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica e o movimento Houthi.
A pressa de Trump em sacramentar o pacto, segundo a análise, atende a fortes pressões domésticas focadas na corrida presidencial norte-americana, marcada para novembro.
A diplomacia do G7 e a influência das potências europeias
Paralelamente, os bastidores do G7 revelam uma sutil mudança de forças entre os aliados ocidentais. Rompendo com o histórico da última conferência no Canadá — onde o governo norte-americano relutou em condenar o Kremlin e em apoiar a integridade do território da Ucrânia —, a cúpula atual demonstrou união ao emitir um posicionamento rígido contra a Rússia. Trump, inclusive, sinalizou o retorno de restrições severas ao mercado de combustíveis fósseis russo.
No campo estratégico do Oriente Médio, países como a França e o Reino Unido despontam com maior poder de atuação naval em varredura submarina (navios caça-minas) na região geográfica em disputa do que os próprios EUA. Esse contingente europeu seria vital para assegurar a livre navegação no Estreito de Ormuz se Teerã violar o pacto.
De acordo com Brustolin, o envolvimento europeu guarda uma contrapartida política: ao pacificar a crise no golfo, a Europa ganha capital político para cobrar de Trump um engajamento contínuo na segurança do leste europeu contra as tropas russas.
Benjamin Netanyahu e o preço do fracasso diplomático
No epicentro do debate sobre a cooperação entre Washington e Tel Aviv, Brustolin sugeriu que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem misturado sua sobrevivência jurídica com a agenda de segurança do Estado de Israel. Atualmente, o premiê enfrenta quatro processos por corrupção, além do desgaste político interno por falhas de segurança no episódio de 7 de outubro de 2023 e de sofrer a pressão de uma ordem internacional de captura emitida pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).
Se os termos acordados entre Washington e Teerã colapsarem, o ônus político recairá pesadamente sobre o líder israelense. "Netanyahu será escolhido para pagar a conta desse eventual fracasso. Donald Trump precisará transferir a culpa para um terceiro", projeta o cientista político.
O cenário ganha contornos ainda mais complexos pelo fato de que nem Israel e nem a liderança do Hezbollah foram integrados formalmente à confecção do memorando, sob o agravante histórico de que a milícia libanesa frequentemente ignora as sanções e resoluções estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU).
