Em julgamento na Segunda Turma, ministro rebate críticas de Gilmar Mendes, defende autonomia do Ministério Público e alerta para "sistema" que tenta anular investigações.
Mendonça revela bastidores e rejeita acordo ilegal
Por Redação Política | Atualizado em junho de 2026
Durante sessão de julgamento na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça revelou ter sido abordado por um advogado com uma proposta de colaboração que ele classificou abertamente como "delação seletiva". O magistrado informou que rejeitou prontamente a investida.
O episódio veio a público no mesmo julgamento em que a Corte optou por manter a prisão preventiva de Henrique Vorearo e Felipe Vorearo — respectivamente pai e primo de Daniel Vorearo, ex-controlador do Banco Master. Na ocasião, Mendonça também advertiu sobre a atuação oculta de um "sistema" articulado cujo principal objetivo seria invalidar investigações em curso.
Sem divulgar a identidade do defensor ou o respectivo inquérito, André Mendonça enfatizou que juízes não devem fazer parte de tratativas voltadas a acordos de leniência ou colaboração premiada, ressaltando que essa prerrogativa institucional pertence de forma exclusiva ao Ministério Público.
"Chegou uma proposta por um advogado. Perderam o pudor. Queriam fazer uma delação seletiva. Na minha cara. Eu disse: não faço questão de delação. Agora, delação seletiva, comigo, não", desabafou o ministro durante a sessão.
Competência exclusiva do Ministério Público
O ministro reforçou o entendimento técnico de que o magistrado relator de uma ação penal não detém atribuição legal para homologar ou intermediar cláusulas de delações. Ele pontuou a necessidade do distanciamento ético e processual nesses cenários.
"A rigor, o relator sequer tem competência para celebrar delação. É a Procuradoria. Eu não participo. Não faço questão", reiterou o magistrado.
Mendonça revelou ainda que optou por não conhecer os termos de uma proposta preliminar apresentada por outra banca de defesa. Segundo ele, o acesso prévio a tais dados poderia inquinar sua imparcialidade e comprometer futuros julgamentos no âmbito do processo.
"A defesa até apresentou uma primeira proposta de delação. Eu não quis acessar, ministro Gilmar. Há uma perspectiva de que certos setores atuam para criar um vício. Tudo o que querem é criar um vício. Há um sistema articulado para isso. Eu não sou cego. Estou acompanhando e assistindo os movimentos", alertou.
Divergências e alinhamentos na Segunda Turma do STF
O posicionamento de André Mendonça ocorreu logo após pronunciamento do ministro Gilmar Mendes, decano da Corte, que teceu duras críticas à condução de colaborações judiciais no país. Mendes asseverou que integrantes do Judiciário não podem assumir posturas inquisitoriais, sublinhando os perigos de depoimentos tomados sob coerção.
"Juiz algum pode comportar-se como delegado de polícia", disparou Gilmar Mendes, questionando os procedimentos que, sob sua ótica, põem em risco a espontaneidade e a validade jurídica dos acordos de delação premiada.
