Em meio à cúpula em Ancara, presidente dos EUA critica a Dinamarca e adverte que a insistência na compra do território ártico pode abalar as estruturas da aliança militar
"Esta postura certamente afetará meus laços com a Otan", ponderou o chefe do Executivo americano.
A afirmação ocorreu no âmbito de uma reunião de caráter bilateral que antecedeu a cúpula oficial da aliança militar em Ancara. De acordo com Trump, o governo de Copenhague falhou em realizar os investimentos necessários no território autônomo. Ele enfatizou que a relevância da Groenlândia se acentuou substancialmente diante das movimentações estratégicas e da expansão militar da Rússia e da China na região ártica.
"A Groenlândia não traz benefícios reais para a Dinamarca, e as autoridades dinamarquesas não aportam os recursos de que a ilha verdadeiramente necessita. Por outro lado, trata-se de um ponto crucial para os Estados Unidos, especialmente agora que a área está cercada por embarcações de guerra russas e chinesas. Não permitiremos que isso continue", declarou o mandatário. Trump concluiu reforçando sua tese de que a região "deveria estar sob a tutela dos Estados Unidos, e não do território dinamarquês".
Origem do Desentendimento
Na véspera, segunda-feira (6), durante uma entrevista coletiva, o presidente norte-americano pontuou que o distanciamento entre Washington e os demais aliados da Otan teve início justamente quando os EUA manifestaram a intenção de assumir a soberania da ilha.
"Se querem a realidade dos fatos, tudo começou com a Groenlândia", relatou aos jornalistas. "Nós demonstramos interesse no território, eles se recusaram a negociar e eu simplesmente disse: 'até logo'."
Esses comentários precederam o encontro formal de Trump com o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, na capital turca. Embora no início do ano, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, o presidente americano tenha inclinado seu discurso em favor de um tratado regulatório de longo prazo — afastando temporariamente discursos sobre intervenção militar —, membros do alto escalão da Casa Branca ainda mantêm em aberto abordagens mais incisivas.
Resposta Rápida de Copenhague
A reação da Dinamarca foi imediata. A primeira-ministra Mette Frederiksen alertou que qualquer movimento hostil por parte dos EUA contra um aliado da Otan decretaria o colapso da coalizão ocidental.
"Caso os Estados Unidos optem por uma investida militar contra um membro da própria Otan, a aliança deixa de existir. Isso destruiria toda a arquitetura de segurança global construída desde o término da Segunda Guerra Mundial", sentenciou Frederiksen em entrevista à rede de televisão TV2.
Críticas de Trump à Aliança Militar
Aproveitando o momento de exposição, Trump renovou suas habituais queixas contra a eficiência da organização multilateral. Ele relembrou o recente conflito com o Irã, alegando que diversos membros europeus negaram apoio logístico básico aos EUA, como a permissão de tráfego aéreo e a utilização de infraestruturas militares em solo aliado.
"A Otan comporta-se como um tigre de papel", desdenhou o presidente, descartando impactos severos caso seu país decida reduzir o protagonismo no grupo. "Nós não dependíamos deles, afinal, não nos estenderam a mão quando foi necessário."
A Importância Estratégica da Groenlândia
Historicamente povoada por comunidades inuítes e posteriormente ocupada por vikings, a Groenlândia iniciou seu processo de colonização pela Dinamarca em 1721. Em 1953, tornou-se parte integrante do Reino Dinamarquês. Embora usufrua de ampla autonomia política interna desde 2009, as decisões de defesa e relações exteriores permanecem atreladas a Copenhague.
Para o Pentágono, o interesse reside na posição intermediária entre o continente europeu e a América do Norte, além das vastas reservas minerais intocadas. Os Estados Unidos operam de forma contínua a Base Aérea de Pituffik desde 1951, considerando a instalação um posto de observação indispensável contra o avanço de Moscou e Pequim rumo ao Polo Norte.